TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE – Capítulo VII (trecho inédito)
As revistas femininas costumam conter encartes de beleza, com mil conselhos e truques manjados, geralmente aproveitados de matérias de números atrás, ou copiados de uma revista americana, não importa. O estranho é como as mulheres ainda caem nesse golpe – tudo que você precisa saber sobre o que fazer e o que não fazer a respeito de. Tsk. Mais estranho do que isso, só uma pessoa cometer repetidas vezes o mesmo erro, durante toda a sua vida fútil de mulher, que lê todos os encartes, mas não se recorda da última vez que fez a maluquice de descolorir seu cabelo, sozinha, em casa. Não há, nos anais dos vacilos femininos, nada que custe tão caro quanto um frasco de água oxigenada 30 vol. e uma embalagem de pó blondor. Um holocausto para os cabelos, um crime contra a humanidade. Bem provável que haja processos e mais processos destas loucas contra os fabricantes de tão perigosos ingredientes de bombas caseiras, já que só a loucura feminina pode levar alguém a recorrer a essa ardente combinação. Homens também querem ser louros, normal, mas só bichas são homens para agüentar a pinicação, a escamação, o formigamento, o ressecamento, a destruição que a mistura blondor e água oxigenada determina no couro cabeludo dos engraçadinhos que se submetem a sessões de clareamento amador. Mesmo os encartes de beleza não cansam de alertar essas loucas patológicas do comprovado insucesso desse tipo de investida. Então a pergunta agora é a seguinte: por que Amanda está fazendo isso com ela? Para quê, afinal? Logo Amanda, mulher tão bem informada, longe de precisar economizar com salão. Que poderia acionar cabeleireiros da Globosat na sua residência, caso fosse por comodismo a opção de não pintar o cabelo. Ou seja, não há uma resposta plausível para a pergunta. Ou há. É que Amanda se acha capaz de clarear o próprio cabelo. Sempre se achou. E alegremente capaz, tipo boba alegre. Fez essa bobagem em vários outros momentos de sua vida, cujas lembranças são geralmente apagadas pela euforia do agora. Nesta noite quente, por exemplo, poderia estar deitada do ladinho do marido, protegida por bons lencóis, acomodada em braços seguros. Só que ela quer se divertir. Girls just wanna have fun. Bad girls have more fum. Assim sendo, está sentadinha na latrina, apenas de calcinha e luvas plásticas, lendo – como se não conhecesse a fórmula mágida do estrago toda de cor e salteado – as explicações, no verso do pacote de Blondor 1+3 da Wella. E é importantíssimo que fique absolutamente claro que, com completa certeza, trata-se de um produto maravilhoso. A invenção do século XX. Nas mão de especialistas. Nas mãos de uma balzaquiana excitada, que acaba de dispensar o analista num rasgo de auto-estima, é um instrumento, no mínimo, arriscado. Ela lê o Modo de Usar. 1) passa direto. 2) coloca-se Blondor 1+3 em uma tigela de plástico ou porcelana, adicionando, pouco a pouco, a água oxigenada. Dessa forma se chega a uma mistura bem gelatinosa, que se aplica aos cabelos e pêlos secos e não antes lavados. 3) o tempo de ação é de 15 a 30 minutos ou até mais, conforme a qualidade do cabelo e o grau de descoloração desejado. 4) passa direto; não liga também para o trecho que vem embaixo, depois da palavra cuidado, em letras maiúsculas e negrito. O texto, sempre desprezado por ela, avisa: contém substâncias passíveis de causar irritação na pele de determinadas pessoas. Antes de usar, faça a prova do toque. Aplicação direta em sobrancelhas e cílios pode causar irritação nos olhos ou até cegueira. O uso indevido deste produto pode causar danos para o couro cabeludo e para o organismo em geral. Não se recomenda o uso ou a aplicação deste produto por gestantes. Em seguida, Amanda passa lotada por outros dois itens desimportantes, um IMPORTANTE e uma PRECAUÇÃO. Então, ela pula a parte que explica como fazer a tal prova do toque, também chamada de prova-jamais-feita-por-nenhuma-mulher-no-mundo. Debaixo disso, ela ignora a composição: persulfato de amônio, silicato de sódio, bicarbonato de sódio, carboximetilcelulose, hidroxietilcelulose, EDTA, dióxio de silício e o corante CI 77007, que deve incluir a licença para matar. Aí lá se vai Amanda, a alquimista, preparar essa gororoba assassina num singelo potinho de tupperware. Consciente de que os 30 minutos máximos não serão suficientes para retirar o Bigen preto-azulado que ela passou nos cabelos drurante o últimos surto faça-você-mesma-sua-canga-de-praia, calcula uns 45 minutos de lambuzagem. E, crente que está abafando com a cultura capilar, decide passar na raiz só alguns minutos antes de tirar o creme dos cabelos, pois ali os fios são virgens. Planeja: da metade dos fios até as pontas, mais ou menos uma hora, e nos dois dedos de raiz, uns 15 minutos. É isso. Pronta para a decolagem. Começa. Slap, slap, slap, pinceladas aqui, acolá, e seus olhos já estão ardendo. Primeira parte do serviço, ok. Senta de novo na latrina e, com um relógio diante dela, folheia uma revista. Que tem 70% de chances de ter uma matéria especial sobre as proibidas incursões ao submundo do clareamento doméstico. Amanda odeia essa mania do marido: ter revistas no banheiro. São como documentos, a provar que têm intestinos. Mas naquele momento, veio a calhar.
Quando lavou os últimos resíduos de blondor, cantava I Get a Kick Out of You com entonação de Ella Fitzgerald. Louvava o alívio de ter a cabeça liberta daquela ardência. Chegou a ensaiar uns passinhos e sacudiu o dedo. Terminado o banho, esfregou, ansiosa, a toalha nos cabelos, louca para conferir o resultado de toda aquela trabalheira. Estava horrível. Mas era previsto que ficasse assim, só havia feito o pedaço relativo ao clareamento. Precisava, agora, encapar os fios com o shampoo tonalizante Granada, dar mais uma enxugada, deixar mais uns cinco minutos com o hidratante capilar, e pronto: uma nova mulher. Uma deusa do cinema mudo feita em casa. Amanda seguiu as etapas com a melhor das vontades. Prostou-se mais uma vez na frente do relógio, acompanhando o arrastado passar de cada instante. Uma vez que, nessas horas, o tempo demora mais, como se quisesse contrariar. Abriu outra revista. Caras. Caras mostra a intimidade do novo símbolo sexual do Brasil. Uma mulher horrorosa, um tipo gabiru, com pernocas gordas, que parecem toletes. Expondo seu mau gosto existencial diante do país. Que horror. Que absurdo. E, no fervor da indignação, quase esquece dos cinco minutos. Respira. Agora é tirar e ver no que deu.

