AUDIÇÃO ATORES

•novembro 21, 2010 • Deixe um comentário

E hoje (22/11), audição para teste de compatibilidade de voz. Estarei reunido no estúdio com grande elenco. ;)

LEITORES BETA – Considerações Ana Luísa (parte 2/2)

•novembro 15, 2010 • Deixe um comentário

QUANTO ÀS  PIADINHAS ATUAIS

não gosto. incomodam-me também as marcas, o nextel sempre presente. não sei, acho desnecessário e torna a obra muito temporal. coisas mais marcantes do tipo a morte do senna, o 11 de setembro, a super bonder e assim por diante acho que rola, mas no geral, não gosto. tudo está tão bonito, as palavras estão tão bem usadas, tão bem colocadas que tenho a impressão que esse tipo de artifício dá uma quebra no profissionalismo e acaba ficando com um tom amador, tirando todo o charme do enredo. mas isso é minha impressão.

QUANTO AO PRÓLOGO

de começo, não é entendível. mas depois, faz todo sentido. é lindo. se bem entendi, é um resumo de tudo, o livro em cinco páginas. achei ótimo estar no começo, fugindo da obviedade de estar no final. acho que a função da literatura é justamente essa, formar a confusão para que possamos botar os neurônios para pensar. se não for nada disso, essa foi mais uma leitura possível, portanto, crível.

QUANTO AO QUE SENTI

fiquei realmente emocionada com a fábula da morte da mãe do personagem. linda, linda, linda. não sei se por que agora sou mãe, mas chorei lendo aquelas páginas, sentada no banco do ônibus ctba/são josé, na avenida das torres, profundamente emocionada com aquela fábula, com aquelas palavras que tocaram meu coração. nesse momento, tive inveja da sua genialidade.

QUANTO AOS LEITORES

acho que o livro é bem amplo. tirando fora aqueles que não conhecem, nunca ouviram falar e sequer sabem da existência da fernanda (que nunca comprarão um livro com esse nome, presumo eu), acho que o livro não será só bem entendido por quem conhece a artista ou sua obra. é claro que conhecer e ter lido implica em um maior número de leituras e um maior entendimento da obra, além de uma maior intertextualidade, levando em consideração a linguagem que você utiliza, que é bem próxima à da fernanda, e dos elementos que ela usa.

(parte 1/2)

TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE – Capítulo VII (trecho inédito)

•novembro 14, 2010 • Deixe um comentário

As revistas femininas costumam conter encartes de beleza, com mil conselhos e truques manjados, geralmente aproveitados de matérias de números atrás, ou copiados de uma revista americana, não importa. O estranho é como as mulheres ainda caem nesse golpe – tudo que você precisa saber sobre o que fazer e o que não fazer a respeito de. Tsk. Mais estranho do que isso, só uma pessoa cometer repetidas vezes o mesmo erro, durante toda a sua vida fútil de mulher, que lê todos os encartes, mas não se recorda da última vez que fez a maluquice de descolorir seu cabelo, sozinha, em casa. Não há, nos anais dos vacilos femininos, nada que custe tão caro quanto um frasco de água oxigenada 30 vol. e uma embalagem de pó blondor. Um holocausto para os cabelos, um crime contra a humanidade. Bem provável que haja processos e mais processos destas loucas contra os fabricantes de tão perigosos ingredientes de bombas caseiras, já que só a loucura feminina pode levar alguém a recorrer a essa ardente combinação. Homens também querem ser louros, normal, mas só bichas são homens para agüentar a pinicação, a escamação, o formigamento, o ressecamento, a destruição que a mistura blondor e água oxigenada determina no couro cabeludo dos engraçadinhos que se submetem a sessões de clareamento amador. Mesmo os encartes de beleza não cansam de alertar essas loucas patológicas do comprovado insucesso desse tipo de investida. Então a pergunta agora é a seguinte: por que Amanda está fazendo isso com ela? Para quê, afinal? Logo Amanda, mulher tão bem informada, longe de precisar economizar com salão. Que poderia acionar cabeleireiros da Globosat na sua residência, caso fosse por comodismo a opção de não pintar o cabelo. Ou seja, não há uma resposta plausível para a pergunta. Ou há. É que Amanda se acha capaz de clarear o próprio cabelo. Sempre se achou. E alegremente capaz, tipo boba alegre. Fez essa bobagem em vários outros momentos de sua vida, cujas lembranças são geralmente apagadas pela euforia do agora. Nesta noite quente, por exemplo, poderia estar deitada do ladinho do marido, protegida por bons lencóis, acomodada em braços seguros. Só que ela quer se divertir. Girls just wanna have fun. Bad girls have more fum. Assim sendo, está sentadinha na latrina, apenas de calcinha e luvas plásticas, lendo – como se não conhecesse a fórmula mágida do estrago toda de cor e salteado – as explicações, no verso do pacote de Blondor 1+3 da Wella. E é importantíssimo que fique absolutamente claro que, com completa certeza, trata-se de um produto maravilhoso. A invenção do século XX. Nas mão de especialistas. Nas mãos de uma balzaquiana excitada, que acaba de dispensar o analista num rasgo de auto-estima, é um instrumento, no mínimo, arriscado. Ela lê o Modo de Usar. 1) passa direto. 2) coloca-se Blondor 1+3 em uma tigela de plástico ou porcelana, adicionando, pouco a pouco, a água oxigenada. Dessa forma se chega a uma mistura bem gelatinosa, que se aplica aos cabelos e pêlos secos e não antes lavados. 3) o tempo de ação é de 15 a 30 minutos ou até mais, conforme a qualidade do cabelo e o grau de descoloração desejado. 4) passa direto; não liga também para o trecho que vem embaixo, depois da palavra cuidado, em letras maiúsculas e negrito. O texto, sempre desprezado por ela, avisa: contém substâncias passíveis de causar irritação na pele de determinadas pessoas. Antes de usar, faça a prova do toque. Aplicação direta em sobrancelhas e cílios pode causar irritação nos olhos ou até cegueira. O uso indevido deste produto pode causar danos para o couro cabeludo e para o organismo em geral. Não se recomenda o uso ou a aplicação deste produto por gestantes. Em seguida, Amanda passa lotada por outros dois itens desimportantes, um IMPORTANTE e uma PRECAUÇÃO. Então, ela pula a parte que explica como fazer a tal prova do toque, também chamada de prova-jamais-feita-por-nenhuma-mulher-no-mundo. Debaixo disso, ela ignora a composição: persulfato de amônio, silicato de sódio, bicarbonato de sódio, carboximetilcelulose, hidroxietilcelulose, EDTA, dióxio de silício e o corante CI 77007, que deve incluir a licença para matar. Aí lá se vai Amanda, a alquimista, preparar essa gororoba assassina num singelo potinho de tupperware. Consciente de que os 30 minutos máximos não serão suficientes para retirar o Bigen preto-azulado que ela passou nos cabelos drurante o últimos surto faça-você-mesma-sua-canga-de-praia, calcula uns 45 minutos de lambuzagem. E, crente que está abafando com a cultura capilar, decide passar na raiz só alguns minutos antes de tirar o creme dos cabelos, pois ali os fios são virgens. Planeja: da metade dos fios até as pontas, mais ou menos uma hora, e nos dois dedos de raiz, uns 15 minutos. É isso. Pronta para a decolagem. Começa. Slap, slap, slap, pinceladas aqui, acolá, e seus olhos já estão ardendo. Primeira parte do serviço, ok. Senta de novo na latrina e, com um relógio diante dela, folheia uma revista. Que tem 70% de chances de ter uma matéria especial sobre as proibidas incursões ao submundo do clareamento doméstico. Amanda odeia essa mania do marido: ter revistas no banheiro. São como documentos, a provar que têm intestinos. Mas naquele momento, veio a calhar.

Quando lavou os últimos resíduos de blondor, cantava I Get a Kick Out of You com entonação de Ella Fitzgerald. Louvava o alívio de ter a cabeça liberta daquela ardência. Chegou a ensaiar uns passinhos e sacudiu o dedo. Terminado o banho, esfregou, ansiosa, a toalha nos cabelos, louca para conferir o resultado de toda aquela trabalheira. Estava horrível. Mas era previsto que ficasse assim, só havia feito o pedaço relativo ao clareamento. Precisava, agora, encapar os fios com o shampoo tonalizante Granada, dar mais uma enxugada, deixar mais uns cinco minutos com o hidratante capilar, e pronto: uma nova mulher. Uma deusa do cinema mudo feita em casa. Amanda seguiu as etapas com a melhor das vontades. Prostou-se mais uma vez na frente do relógio, acompanhando o arrastado passar de cada instante. Uma vez que, nessas horas, o tempo demora mais, como se quisesse contrariar. Abriu outra revista. Caras. Caras mostra a intimidade do novo símbolo sexual do Brasil. Uma mulher horrorosa, um tipo gabiru, com pernocas gordas, que parecem toletes. Expondo seu mau gosto existencial diante do país. Que horror. Que absurdo. E, no fervor da indignação, quase esquece dos cinco minutos. Respira. Agora é tirar e ver no que deu.

 

LEITORES BETA – Considerações Ana Luísa

•novembro 12, 2010 • Deixe um comentário

A bela crítica que recebi da Ana Luísa (foto) veio dividida em tópicos. Publicarei, então, em duas partes. Uma hoje, outra, semana que vem. Opto por transcrever a crítica como ela me veio: integralmente em minúsculas, períodos longos, sintaxes mais estéticas que informativas… Obrigado, Ana. Adorei as menções subjetivas a passagens do livro, evidenciando que ele, de fato, já está contigo. Como eu também estou, diga-se de passagem.

Ana Luísa

Ana Luísa e a Filha, Elis

QUANTO ÀS IMPRESSÕES GERAIS

certo dia, estava eu em uma livraria de curitiba, olhando livros, quando um deles me chamou a atenção, pelo design da capa, pelo nome do livro, pelo nome da autora. vergonha dos pés era o nome e não preciso dizer mais nada. comprei, mostrei para o meu marido, que não deu a bola que eu esperava, sentei na minha cama e li como há tempos não lia. como quando minha mãe me deu o livro meu pé de laranja lima e eu li em uma sentada. terminei o livro catártica. queria ser ela, queria escrever como ela, queria ter a genialidade dela. queria ser aquilo que sempre sonhei ser, tendo como inspiração aquela obra. até que. na minha casa, conversando com você, você me falou sobre o seu livro. foi como um golpe no coração. um golpe bem dado na falta de vergonha na cara que me acomete. tempos e tempos passaram e eu sequer comprei todas as obras dela, eu sequer sentei no computador e desenvolvi algo a mais que uma página. mas desenvolvi. acredite ou não, desenvolvi. vou tentar achar para te mostrar. enfim. isso não faz de mim uma invejosa da sua obra, isso faz de mim uma grande admiradora do seu processo de criação e, sobretudo, de você. amei ver no papel aquilo que eu gostaria de ter escrito. duas vezes. o que ela escreveu e o que você escreveu.

QUANTO AOS NOMES

a história é ótima. a confusão que se dá entre amandas, augustos, gustavos, edmunds, rômulos, fernandas e eu, como leitora, é muito boa. é como se o autor, você no caso, gozasse na nossa cara e o gozo não tivesse aquele gosto de quiboa que normalmente tem. adoro essa interação, essa metalinguagem com a realidade, com a ficção, com sei lá que caralho. no começo, não estava entendendo. depois comecei a desconfiar, do tipo: será que isso é de propósito? depois pensei: palhaço, ta tirando com a minha cara? depois: hum…entendi… mais tarde: ué, cadê a amanda e o augusto que eu estou sentindo falta?, quando, como se você estivesse escutado o que eu estava pensando, novamente inseriu aqueles personagens que não são personagens e que ao mesmo tempo são. adoro essa confusão, adoro ter que pensar, ler e reler, voltar, pensar de novo e chegar a uma conclusão que, em poucas páginas, caem por terra. isso tudo sem perder o fio da história. adorei.

QUANTO ÀS PIRAS DE AUGUSTAVÔMULO

acho que tem horas que as reflexões do personagem, joão, diria trevisan, ficam cansativas. são essenciais, mas são tantas que se tornam cansativas. acho que poderiam ser reduzidas algumas delas, como aquela que rola depois de quando os dois se encontram no bar e rola toda aquela cena na praia. poderia ser menos. entendo o tamanho da decepção do personagem, que a ele cabe toda a reflexão do mundo, mas enquanto leitora, achei cansativo. a história e os fatos narrados falam por si só. entendemos que a autora está sendo babaca e negando uma verdade. entendemos que augustavômulo só fez aquilo por amor e que sim, ele poderia ser um psicopata apaixonado como aquela louca daquele filme com o michael douglas que mata o coelho da família, mas não o é. não estou dizendo que as piras não devem existir, atenção! estou dizendo que as piras estão muito piras. mas ok, o livro é seu, você faz com ele o que quiser.

(parte 2/2)

A LIFE ON FABEBOOK!

•novembro 11, 2010 • Deixe um comentário

AMAZING!

Vale a pena conferir…

 

TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE – CAPÍTULO VI (trecho inédito)

•novembro 10, 2010 • Deixe um comentário

Eternal sunshine of spotless mindA mim, o que me consola é saber que você nunca passará disto: um embuste humanitário. Alguém que, mesmo morando numa mansão, continuará com movimentos de quitinete. Devo assumir: agora eu não sou mais seu porque você não me quer mais. Agora é assim. Depois, não estarei por perto para não correr o risco de sucumbir quando você quiser de novo meu pau, minhas mãos, meus sorriso, meus discretos porres, minha palavras. Sei que aquilo que a movia para mim é o mesmo que move todos os fantasmas que querem voltar à vida. E dar vida você podia, fazer com que eu acreditasse em você, você podia. Mas me deixou vacilando entre alegrias e desesperos, como um ponteiro quebrado. É sobre isso que quero falar: sobre como estive morrendo por não estar contigo. Como mudavam os meus dias se você não me ligava. Se eu pudesse escolher, dormiria até tudo passar. E vai passar. Falo sobre o que eu não sei. Como os apaixonados fazem. Os apaixonados desprezados. Os que sofrem por amor e acham que devem sempre falar sobre isso. Sobre as suas más condições. De estarem prestes a morrer, sabendo que não vão morrer.

Depois que você foi embora, eu não evitei sofrer. Escutei muita Maria Bethânia. Odiei existir naquela mulher Chico Buarque, que existiu em mim naqueles dias, se arrastando atrás da porta, e que existe ainda agora, aqui, sentado, enquanto escrevo. Porque é óbvio que é uma mulher quem escreve estas palavras. A mulher espera, o homem chega. A mulher recebe, o homem preenche. A mulher sucumbe, o homem regenera. A mulher fica, o homem parte. Consola-me saber que, findadas estas páginas, meu lado feminino também terá cessado, porque me dói existir mulher.

Caralho!

O que é que estou falando!?  Digressão. Bem, o que eu quero dizer  é que, no dia em que você foi embora, não, não foi no dia, foi no dia seguinte. Não, não foi no dia seguinte, foi no outro. Bom, foda-se quando foi. Um dia, depois que você foi embora, reuni disposição para varrer a casa ainda uma vez. Eu entendia pouco ou quase nada do que eu queria fazendo aquilo. Que diabos quer alguém suprindo uma ausência com um cabo de vassoura? Era somente uma tentativa louca de, varrendo, encontrar ainda alguma última coisa que me lembrasse você. Que fosse a prova que você tinha de fato existido um dia. Podia ser qualquer coisa, um fio de cabelo, um pelo, um pentelho da última vez que fizemos amor. Ou menos até, podia ser. Se eu tivesse sempre à mão um microscópio para mostrar à toda gente, até uma bactéria que tivesse sido parte do seu corpo podia ser. “Restos de tecidos epiteliais mortos.” Os mesmos que cobriam seu organismo quando você estava aqui, e que agora cobrem a sua ausência no lado esquerdo da cama. Cubro-os toda noite com o mesmo edredon de penas de ganso gigante que cobre o meu corpo. O que restou de mim e o que restou de ti acomodados sob um mesmo lençol. Eu, você e os ácaros, unidos para sempre na sujeira daquela casa que eu nunca mais varreria até partir.

Lacuna Inc. - Eternal Sunshine Of The Spotless Mind

Lacuna Inc.

Será que você lembrava como eu fico bonito no cinema? Eu estava belíssimo assistindo Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Será que você, assim como eu, entendeu o que é amar tão desesperadamente a ponto de ligar para a Lacuna Inc. querendo apagar a memória!? Justamente a memória, que é a única coisa que resta depois que tudo termina? Porque, veja bem, querer esquecer é horrível. E você sabia que eu perdi a tal ponto a noção da realidade quando você me abandonou que procurei na lista telefônica o telefone da Lacuna Inc. e quase liguei pro Jim Carrey pra perguntar se valia mesmo a pena, e dizer pra ele que, de qualquer forma, fosse como fosse, eu nunca apagaria da mente a Kate Winslet, por pior que tivesse sido uma história com ela?

Será que você assistiu A Espinha do Diabo? Se assistiu, será que lembra da parte do fantasma? “O que é um fantasma? Uma coisa terrível, condenada a se repetir indefinidamente. Um instante de dor, talvez. Algo morto que ainda parece estar vivo. Um sentimento parado no tempo. Como uma fotografia borrada. Um inseto preso em âmbar.” É você o fantasma para mim. E não falo aqui de um Gasparzinho, um fantasminha camarada. Ou um bonitão, Patrick Schwayze em Ghost. O que estou falando está muito mais para Freddy Kruguer que Whoppi Goldberg. E também não falo aqui só do que você representava para mim quando partiu, mas quando chegou. Era isso que você era quando veio: um fantasma que quer voltar à vida. Incômodo como qualquer criatura insatisfeita com o que é. Vampiresco e invejoso como qualquer coisa que é uma, querendo ser outra. Frustrada como o crítico que queria ser romancista. Carente como o escritor de obituários que quer ser redator chefe. Arrasada como a Angélica querendo ser a Xuxa.

Quando eu a conheci, haviam feito de você um fantasma. (E sou mais uma vez impreciso quando uso o sujeito indeterminado para dizer o que haviam feito com você quando, na real, sabe-se muito bem quem é o sujeito dessa oração.) Embora eu não quisesse acreditar que tivesse havido vida para você até que eu aparecesse, você havia, sim, sido casada com um príncipe. Por causa dele, estava doente de amor quando a conheci – ou doente de abandono, já que o amor deve ser a condição para a cura de tudo, sendo doença somente o que não advém dele. O príncipe havia se revelado sapo. Não quis mais beijar a princesa que, abandonada, ficou sozinha e morreu, lembra? Virou fantasma. Só que a princesa não se conformou com a morte. Queria voltar à vida. Se disfarçou então de mariana-bi-21anos, entrou num chat e pediu ajuda. Vampirizando, batendo à porta do coração dos outros, que agora já nem precisavam mais ter nome de príncipe, podiam ser quaisquer plebeus, desde que a tirassem dali, daquele desespero em que se encontrava. Sua conversa, um lamento. Seu cumprimento, um pedido de ajuda. E eu, ao responder, vaticinando a senha para o meu martírio. Encontrei em você o vampiro que me retrocede. A carência que me suga. Fez comigo aquilo que, por já o terem feito contigo, não lhe assistia o direito de repetir comigo. Poderia ter me poupado do que não me poupou, sabendo do terror que era tudo isso. Usou a vitalidade do meu sangue para bater suas asas que, agora eu sei, nem de longe eram de anjo. Ingenuidade minha acreditar que, só porque tinha asas, era anjo. Um vampiro ou o Vingador da caverna do dragão também têm. Então você é isso!? Então você é só isso!? Uma coisa que se faz passar por outra quando, na verdade, não é nada!? Ou que, pelo menos, não deveria ter sido nada, já que, não sendo o que era, fez-se para mim o que não era nem nunca poderia ter sido!? Em outras palavras: algo que, não sendo nada, fez-se tudo. Complicado? Ah, nem tanto. Leia de novo!

TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE – CAPÍTULO V (trecho inédito)

•novembro 7, 2010 • Deixe um comentário

Você vai saber, sua escrota, o quanto eu a amei. Quanto ainda a quis por muito tempo, depois que você foi embora. O que tenho dentro do peito é um coração que quer quebrar as costelas e rasgar a pele, sujando tudo com tudo isso. E quase não há metáfora aqui. É assim a dor de perder um amor.

É certo, muito certo, que o ódio não pode existir por onde ele não vagou primeiro. Não nego, não tenho por que negar. Não tenho motivos para esconder-me atrás de sentimentos mal-entendidos, aqueles que se fantasiam de inconsciência para flutuar, durante o sono, pela mente dos tolos. Não nego meu amor. Enorme amor ruim, tão inegável que ainda posso senti-lo. Acho que sinto. Ora talvez pareça que ainda a ame. Mas não, são apenas momentos de onda reverberada. Sensação que foi, bateu na borda e retorna, menor e invertida. Pois basta recorrer às piores lembranças que sei que não sinto mais nada por você. Que te amar foi só uma burrice de minha alma oferecida. Apenas não dá para evitar esses ecos quando se revela algo como o que revelo aqui. Aquilo que pensei tão conclusivamente não é nada além de uma variação do que antes pensara de forma oposta. Pretendo esgotar de vez esse assunto. Pois sigo em busca de um entendimento que me escapa e me deixa confuso.

Quero entender, então escrevo. Está aqui, pois, tudo o que eu queria dizer e não disse. Tudo que ficou engasgado até hoje, está aqui. Escrito, escarrado e vomitado. A única possibilidade de exorcizr você, sem que seja necessário que eu morra, ou que você me aceite de volta.

Me apresso em assumir: “sim, é para você que escrevo”. Mas não se orgulhe disso. Não imagine só o lado de bom de servir de inspiração ao poeta. Sei que ser musa é realmente muito engrandecedor, ainda mais para uma personalidade tão necessitada de atenção quanto a sua. Mas este livro não foi escrito para te enaltecer. Apenas como forma de mostrar o autor genial que você perdeu. Todo esse jorro de palavras era seu. Era seu. Mas você precisou que ele se tornasse público para entender o que perdeu. Só escrevi este livro porque você não foi inteligente para perceber sozinho tudo isso que eu tive que escrever sobre você, por você, para você. Nos espelhos que te dei, tive que refletir a tua imagem. E não, Ana, você não é assim tão boazinha, tão queridinha, tão ingênua quanto você pensa. Você é assim como eu te mostro neste livro, que é minha vida, meu amor e seu espelho. Portanto, não se orgulhe por eu ter escrito pensando em você, porque só escrevi o que seu egocentrismo me ensinou a não escrever em cartas. Porque aí sim eu estaria escrevendo para você. Porque as cartas são feitas para serem lidas para quem elas foram escritas. Mas os livros, os livros são para a humanidade inteira. Transformei o seu equívoco em arte, porque sou artista. Caminho descalço sobre cacos de vidro. Fiz um livro para mim do que você fez comigo. E você? Fez o que com o amor que eu te dei? Esse amor que você está conhecendo agora. Jogou fora por medo de viver o que você é? Por vergonha? Porque às vezes, as pessoas deixam passar suas outras metades por não conseguirem viver repletas? Por uma estranha necessidade de estar só, de lutar, batalhar seu espaço? Conquistar o mundo? Toda uma retórica cafona sobre o que é ser independente. Você se fodeu, você me perdeu. Morreu e me matou. Nós nos fodemos, só que eu ainda terei a existência de mil gerações. Eu serei eterno. Vou escrever um livro inteiro para provar que sou sublime. O seu desamor, que você me deu, acabou me catapultando à dimensão da verdadeira eternidade. O meu corpo, que você lambeu, é só um cocon de carne, era  sempre seu ego que precisava de mim, nunca você. Era seu ego que queria ir à rua comigo, nunca você.

Não quero te ver nunca mais.  Te escrevendo, te expulso, te expurgo de mim. Eu poderia tomar Lacto Purga para isso, mas como o que limpo de você agora é a alma, e não o resto, ficam aqui estas palavras.

Se eu morrer, eu só vou deixar de ser vista…

•novembro 6, 2010 • Deixe um comentário

TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE – Capítulo IV (trecho inédito)

•novembro 3, 2010 • Deixe um comentário

Enquanto isso, Gustavo abre a porta blindex do box. Enquanto que não é sinônimo de simultaneidade, posto que a parte da história que se vai contar não é paralela à aventura capilar de Amanda. Enquanto que já aconteceu, que é passado. Enquanto que serve apenas para ligar as narrativas e fazer o elo entre as partes deste livro, deixando claro que elas não são escolhidas à toa, como que por sorteio, mas sim orquestradas com cuidado por um narrador que pode fragmentar toda a narrativa, escolhendo a melhor forma de apresentar todas as descontinuidades desta história e fazer com que elas se cruzem no momento certo e com o impacto desejado logo ali na frente. Enquanto que serve apenas para provar sua onisciência, sua capacidade de ir adiante e retroceder no tempo como bem entender, dizendo à você: “Ei, vem comigo. Confia em mim. Eu sei onde eu quero chegar, porque diferente de você, eu sei onde vai dar esse agora que já é passado…”

Então, Gustavo abre a porta blindex do box. Porra! Não tem toalha! Não acredito. Eu vou gripar. Vou pegar uma pneumonia. Tenta se enxugar com a camisa que antes estava vestindo. Uma blusa já suja. Fede parcialmente. Tem uma mancha de molho de tomate bem no meio dela. Merda! Gustavo corre nu para fora do banheiro. Por uns instantes, olha em volta do quarto, tentando encontrar uma toalha jogada em algum canto. Não encontra. Merda! Sai do quarto saltitante. No corredor há um armário, lá dentro encontra uma toalha, mas de chão. Vai ser essa mesma. Essa porcaria áspera. Preciso dar um jeito na minha vida. Gustavo faz o que pode com o pequeno pedaço de tecido. Áspero, tinha razão. Preciso dar um jeito nisso tudo. Não vai desistir. Não agora, que já tomou banho.

Gustavo sabia, um: escrever romances é contar as minhas coisas misturadas com as coisas dos outros. Gustavo sabia, dois: posso fazer do meu computador, meu divã. Gustavo sabia, três: vou dizer para o Marcelo as coisas que ele não quis ouvir. Gustavo sabia, quatro: escrever é fácil. E, por último, Gustavo sabia, cinco: nasci escritor!

O nome do livro já estava decidido: Quando Ana me deixou. Começaria assim:

“Era início de verão quando Ana me deixou. Lembro-me disso não porque fosse um desses aficcionados por nomes, datas e horários ou porque tivesse um calendário às mãos quando isso aconteceu. Mas sim porque foi o cheiro das uvas a última coisa que senti antes disso, de que Ana me deixou.”

O nome escolhido para Marcelo (Ana) e o estilo literário adotado seriam uma homenagem a Caio Fernando Abreu e a um conto dele em que o personagem narra com precisão o vazio de uma ausência. Ele começa:

“Quando Ana me deixou – essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos – e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou – e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência dela.”

E termina:

“Sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento – aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos.”


Entre esse começo e esse fim, narra a busca inútil do personagem para preencher o abismo em que Ana se retirou e o atirou, e o deixou ali sozinho. Inspirado na “saga do abandono” e se identificando tanto com ela a ponto de chorar por horas a fio ao lê-la, depois de ser abandonado por Marcelo, Gustavo dividiria a sua história em três partes: quando, antes e depois que Ana me deixou. No momento antes, narraria seu encontro e sua vida com “Ana”. No momento depois, o caminho que iria da degradação até a reconstrução total do seu ser, o ser Gustavo (que no livro se chamaria Augusto). E, por último, o momento quando. Este, o mais importante. Por momento quando, Gustavo entendia o instante exato em que seu alter-ego percebia que estava sendo abandonado. O momento “me fugiu o chão”, que dá total conta do abismo em que a gente cai quando o amor acaba.

A grande sacada, Gustavo achava, era que, se a sensação do personagem era que o tempo houvesse parado naquele instante do abandono, o momento depois seria a eterna e angustiante repetição do momento quando, ou seja: arf! Mais que isso: arf, arf, arf! Três vezes. Qualquer pessoa que já tenha perdido um grande amor sabe do que eu estou falando. Só valeria narrar essa experiência se as palavras, num desempenho acima do esperado, pudessem conduzir com tamanha eficiência as sensações que dispensassem o uso da imaginação, transformando a narrativa na exatidão do fato. Como isso não acontece, não há necessidade de arte nessa hora. Mas se você não, ainda não passou por isso, Fernanda ajuda você:

“Depois daquela história, juro, parecia que eu havia caído do alto de uma escadaria. Tombado e rolado, sob o imenso peso de um objeto raro que carregava. Pior que isso: parece que peguei uma escadinha doméstica e me equilibrei no topo de seu degrau mais alto, para então puxar, de cima de um armário, uma mala cheia de pedras. E no tranco necessário para tirar essa mala dali, lancei-me inteira para trás, esborrachando-me com as pernas abertas em cima de um cacto.”

É isso. Não seria suficiente recordar um amor com a exatidão de tal metáfora? Alguém aí quer mais detalhes? A grande diferença entre o conto de Caio e a história de Gustavo seria o final. O final de Caio era resignado, o personagem nunca conseguia se livrar daquele momento quando. Já Gustavo queria oferecer uma esperança, uma possibilidade de redenção, um processo longo de assimilação da ausência, uma cartilha prática, enfim, sobre o que fazer quando algo ou alguém que supúnhamos grande, de repente, acaba. Não que ele estivesse preocupado com o conteúdo ou a moral da história (nessa altura, é aquilo que já foi dito, ele ainda pretendia que esse livro fosse praticamente só um desabafo). Queria apenas entender e, por isso, escrevia. Contra sua vontade, lembrava de tudo, mantendo apenas uma técnica em seu socorro: a transmutação de pensamentos. Era a única forma de justificar aquele pouco tempo perdido que tiveram juntos.

E a essas alturas, Gustavo já sabia mais. Sabia mais, um: vai ser através do livro que Marcelo vai tomar conhecimento do que vai, para ele, em minhas gavetas. Sabia mais, dois: vou narrar algumas partes da história pelo ponto de vista dele, porque não há nada mais cruel do revelar o que o outro pensa, mostrando que se sabia de tudo o tempo inteiro. Sabia mais, três: a vida de Augusto vai ser a minha vida em proporções variadas. Sabia mais, quatro: nesse romance vou falar sobre coisas em que eu acredito e outras em que nem tanto. E sabia mais, cinco: essa história vai ser uma desculpa para eu falar o que quiser sobre qualquer assunto…

Com estas coisas que sabia, mais os livros que consumia vorazmente e umas tantas idéias originais, estava pronto para começar.

Durante aqueles vários dias em que se dedicou à Quando Ana me Deixou, sentiu-se especialmente ligado em tudo à sua volta. Era como se qualquer acontecimento, por mais corriqueiro e vulgar que fosse, pudesse se transformar em páginas de sensatez e poesia. “Não vai ser um romance sobre mim, mas sobre o que eu seria se fosse um personagem. Porque tudo que está no personagem está, antes, no autor. Como se fosse a realização nele do que em mim está apenas em estado latente. Um esforço de observação interior que potencializa no Augusto o que está apenas esboçado em Gustavo. A vida de Augusto em compasso de espera depois que Ana o deixou, mostrada na narrativa de cenas cotidianas onde pouco, ou quase nada, acontece.”

“Uma coisa é certa: vai ser um livro que transborda cotidiano. Augusto cagando, Augusto tomando banho, Augusto lavando louça… Augusto vai ser outra pessoa, mas ainda vai conservar algo de mim. Augusto assistindo tevê, Augusto em frente ao computador, Augusto querendo escrever um livro…. Isso! É isso! Assim como eu, Augusto vai querer escrever um livro para dizer à “Ana” tudo que ela não deixou sumindo. Quando abandona Augusto, Ana viaja num navio, sem rumo. E como ele, Augusto, não pode mandar para ela as cartas que escreve, vai usar o livro para que Ana tome conhecimento delas, para que Ana tenha conhecimento do que vai, para ela, nas gavetas dele. No meio da história, Augusto vai encontrar um pretexto para encaixar as cartas que ele escreveu e não mandou. Não podia escrever no envelope ‘navio tal, oceano Atlântico’ e simplesmente confiar na eficiência dos Correios – seria mais provável, se fizesse isso, que Ana nunca tomasse conhecimento de tais cartas –, então inventaria uma forma, um pretexto literário de encaixá-las no livro, como o major do Mundo de Sofia mandando cartões de aniversário para a filha no próprio livro que escrevia para ela. Seria uma vingança e tanto! Tudo aquilo que Augusto poderia ter dito só para ela, no ouvidinho dela, ao alcance de qualquer um, em qualquer livraria..”

Sim. Era isso que Gustavo devia fazer: escrever as coisas como ele gostaria que acontecessem, libertando-se da necessidade de vivê-las. Devia fazer com que Augusto desse à Ana os recados que ele gostaria de dar a Marcelo, escolher uma capa bem bonita e esperar que o destino se encarregasse do resto. O resto sendo Marcelo entrar cinqüenta um dia numa livraria, descobrir o nome de Gustavo na seção de literatura brasileira, e encontrar ali o que sua covardia a impedira de ouvir cinqüenta anos mais jovem.

Talvez Marcelo nem encontrasse o livro numa livraria, mas na mochila de um de seus netos. Reconhecendo, então, o nome de Gustavo, mas não tenha certeza se era ele mesmo, iria direto para a contra-capa em busca da foto que lhe daria a certeza de que sim, era ele mesmo, seu amor da juventude. Mesmo que tenham se passado cinqüenta anos, e a gravidade já tenha mostrado que sempre vence, Marcelo o reconheceria pelo brilho dos olhos. Inconfundíveis. Então, olharia para os lados, para ter certeza de que o neto não o observava, para que o neto não perguntasse porque aquele interesse súbito naquele livro, e abriria tremendo o exemplar. Se espantaria já na primeira página. Reconheceria ali publicada uma história sobre anjos, bonecos, provas e desmentidos que Gustavo escrevera para ele, anos antes, só que – triste! – dedicada a outra pessoa. Uma tal de “Ana”, entre aspas. Marcelo ficaria triste de início, pensando em como era triste que uma mesma história pudesse servir descaradamente a mais de uma pessoa, bastando mudar o nome. E por que ele tirara dele aquela história, ao longo da vida, para dá-la à outra pessoa?

E assim que continuasse a ler, entenderia tudo: “Ana”, entre aspas, era ele. Aquilo lhe seria bonito e duro ao mesmo tempo. Bonito porque, portanto, era um livro que falava dele e, vaidoso, narcisista e exibido do jeito que era, se descobria ali Mona Lisa. Duro porque, apesar de ser escrito por ele e para ele, só o teria sido feito para dizer tudo aquilo que sua própria covardia o impedira de ouvir anos antes. A vontade de Marcelo seria pegar aquele livro e contar: “Você sabia que este livro foi escrito para mim? Sabia que “Ana”, entre aspas, sou eu? Sabia que era em mim – só em mim que este autor pensava enquanto escrevia esse livro que você tem na mochila!?” Só que o castigo de “Ana” seria nunca poder revelar que “Ana” era ela, e que aquele livro tinha sido escrito especialmente para ela, não importando quantas pessoas o lessem ou quantos netos os tivessem em suas mochilas. Por dois motivos: Primeiro, porque “Ana” era pudica demais para, assumindo ser “Ana”, assumir por tabela que fazia algumas coisas que estavam descritas ali. Segundo, porque teria medo de ser “linchada” ao ser delatada como a personagem real que renegara todo aquele amor contido ali.

Quando pensava em “pudica demais para assumir algumas coisas que fazia ali” Gustavo se referia especificamente à bichice de Marcelo. O grande castigo dele, Gustavo acreditava, seria, em sua vaidade, nunca poder gritar: “Puta que o pariu! Alguém me ama tanto que escreveu um livro para mim!” ou “puta que o pariu! Alguém me ama tanto que me escreveu num livro!” Até aí, como se vê, a coisa era simples, portanto. Era só um livro pra dizer ei! Ei moço! Como é que você pode me esquecer assim? Será que você esqueceu de tudo? Esqueceu daquele dia que vocês se conheceram, naquele bar? Era frio e ele estava de cachecol. Você dizia que adorava os cachecóis dele, você lembra dos cachecóis dele? E depois ele te levou para o apartamento dele, A Torre. E você o olhava dirigindo enquanto ele contornava o Círculo Militar, em frente ao bar, e você disse: “gosto do jeito que você dirige”. E não havia nada de mais no jeito que ele dirigia. Era só o único jeito que existe de todo mundo dirigir, deixando as mãos sobre a direção e tirando a direita de vez em quando para cambiar a marcha.

Depois, em casa, era frio e ele colocou Marisa Monte para tocar. E ele, que sempre se orgulhava de se lembrar de tudo, tinha esquecido disso. Foi você que o lembrou meses mais tarde, depois de uma separação, quando colocou o mesmo álbum e fez aquela vozinha de criança que ele tanto gosta e disse: “igual quando tudo começou, pra gente começar tudo novamente”. Você esqueceu, moço!? Esqueceu da pizza de chocolate que você não vai mais encontrar em lugar nenhum do mundo a não ser na casa dele!? Você já viajou a muitos lugares do mundo, sabe que isso é verdade, e ainda assim você deixou de ir na casa dele!? Foi porque esqueceu, não foi!? Assim como esqueceu daquele tipo específico de carinho leve na cabeça, o cós-cós, e que você foi a única pessoa que o conheceu literalmente por dentro quando ele operou a apendicite e o corte supurou, deixando um buraco na barriga que parecia um olho e que dava pra ver lááááá dentro, o fígado, os rins, os intestinos, sei lá eu o que era aquilo.

Tinha também os recados que ele escrevia nos bares, em guardanapos, e aquele lance de vocês se dizerem, nesses mesmos bares: “cinco segundos no banheiro” e irem para lá matar as saudades dos seus corpos. Não tem muito como esquecer isso, não é, moço? Ou tem? Tem como esquecer “o jardim” que vocês viam nus da janela do quarto dele, durante o sexo, pirando tanto de ditador e de Evita do povo, tecendo teorias sobre o ato sexual e o poder? Ah, fala sério que você esqueceu que um dia você, bem bobão, enquanto ele tomava banho, escreveu um bilhete de despedida onde insinuava uma frieza glacial, terminando com “a gente se fala, cara”, e se ajoelhou atrás do sofá, jurando piamente que ele fosse acreditar que você tivesse mesmo ido embora? Esqueceu de como era lindo quando você friccionava o centro do peito dele e ele repetia “adoro você” como aqueles ursinhos de pelúcia da Disney? E que um dia ele escreveu uma história só para você, você lembra? Uma história sobre anjos, bonecos, provas e desmentidos, que ele colocaria no início do livro dedicado a “Ana”, entre aspas, pra que você soubesse que Ana era você o tempo inteiro? E você esqueceu de quando comiam pizza de milho e diziam pro milho, despudoradamente escatológicos: “te vejo na saída”? E de quando choravam um no colo do outro com as palavras que Deus – um no qual ele ainda nem acreditava! – colocava em suas bocas? Hein, moço!? Você esqueceu? Esqueceu tudo isso?

Espera aí que eu ainda não terminei. Tem mais! Tem aquela vez que vocês estavam no carro e o carro estava transbordando de amor. Ele ia dizer pela primeira vez que te amava, só que ele tinha medo de dizer. Então ele disse: “eu quero dizer uma coisa, mas tenho medo”. Você fez uma pausa e disse: “não precisa dizer, eu sinto”. E teve uma vez que ele ficou cantando no carro: esqueça se ele não te ama, esqueça se ele não te quer. E você falava para ele calar a boca, parar de cantar música triste. Ele sabia que você falava isso porque estava lembrando do outro que você teve antes dele (um que tinha nome de príncipe inglês mas que na verdade, igual à você, se revelou um anfíbio filho da puta). Estava lembrando que tinha alguém a não te amar, a não te querer. Mas o que importava na música, e que Gustavo queria que você percebesse, era o que vinha depois, que você nunca soube ou nunca entendeu porque estava concentrado demais em lembrar do pior: não chore mais… vem pra mim… vem, não sofra… não pense… não chore mais, meu bem…

E dos pezinhos um em cima do outro na hora de dormir, você esqueceu também!? E de quando ele saía de manhã e deixava as escovas-de-dente de vocês grudadas pelas cerdas, se beijando, e um monte de bilhetinhos lhe recebendo e lhe dizendo bom-dia no lugar dele: em cima do travesseiro, entre as escovas se beijando, dentro da garrafa de leite… Ou você esqueceu de tudo isso ou você é louco, porque ninguém abandona uma pessoa assim. Será que se o olho do apendicite suporado dele, pelo qual você o viu por dentro, não fosse no abdômem, e sim mais para cima – em direção ao peito – e também mais para a esquerda – em direção ao coração – você teria se visto lá dentro e, narcisista, teria ficado?

E só pra encerrar tem aquela, daquela vez que vocês terminaram e no dia seguinte ele te ligou para saber como você estava – porque ele é do tipo que termina e no dia seguite manda flores para suprir sua ausência. E você disse: “não posso falar agora, vou sair”. Ele, já chocado por vê-lo resolver tão bem assim sua vida whitout him, perguntou: “ah, é? O que quê você vai fazer?” Você: “Assistir Os Normais, o filme”. Desde o primeiro dia – aquele do carro e do cachecol – vocês brincaram de ser Rui e Vani, adotando aquele tipo de humor do casal em várias ocasiões. Era uma marca registrada de vocês, por isso Gustavo fez um esforço enorme para soar natural ao perguntar “com quem”, mesmo tendo vontade de chorar ao constatar que iam assistir separados um filme que passaram meses esperando para assistir juntos. Para surpresa dele, você respondeu: “contigo”.

Você sabe o que ele sentiu, não sabe? Pelo menos imagina, não imagina!? Uma esfuziância súbita! Não há metáfora que dê idéia da instantânea alegria em que a melancolia de Gustavo se transformou. Isso era o que ele mais gostava em ti: essas maneiras tão simples de dizer “quero continuar só com você”, como se estabelecesse um acordo tácito e implícito de que separação alguma havia ocorrido. Como se tivesse sido um sonho que, embora existido, não precisasse ser levado em conta ao acordar, porque os sonhos acontecem, mas não alteram a realidade.

Então é isso. Você sabia de tudo isso? Sabia, hein!? Sabia que era isso que Gustavo mais gostava em você? Não!? Claro que não. Isso, você não tinha como saber. Isso, ele nunca te contou. Isso, você só está sabendo agora.

LEITORES BETA – Considerações Maria Luiza

•novembro 3, 2010 • Deixe um comentário

Meu caro,  como deve ser de seu conhecimento, durante o mês de outubro cerca de 30 Leitores – chamados Beta – estiveram lendo o livro para me auxiliar na identificação e correção de possíveis bugs. O nome vem inspirado no termo “teste beta”, utilizado em no âmbito da computação e apropriado pelos usuários de sites e comunidades virtuais destinados à fã-fiction, em que escritores diletantes disponibilizam suas histórias (criadas a partir de universos narrativos de autores “legítimos”) para a leitura crítica dos outros usuários. Foi a primeira vez que a obra teve contato externo para além das paredes do meu crânio.

Durante este período, esses Leitores trataram de comentar comigo (by fone, mail, comunidades e pessoalmente) suas impressões, críticas e sugestões. Alguns começam agora a enviar pareceres registrado, que irei postando sazonalmente. Como este primeiro, da Maria Luiza, que posto abaixo.

Maria Luiza, Leitora Beta de "Quero ser FY"

Maria Luiza, Leitora Beta de "Quero ser FY"

OPINIÃO

“O que eu diria se ganhasse dinheiro para atirar pedras, ou seja, se eu tivesse uma coluna entitulada ‘crítica’ num desses jornais por aí…

“Uma literal sopa de letrinhas, misturando Saramago com alguns trechos de  certa melancolia  Garcia Marques, atemporais como J. Gaarder e a Sofia – meus trechos preferidos -, até meio Capra, um ‘romance quântico’.

“Rômulo Zanotto faz uma viagem pela mente de um certo Gustavo e de uma certa Fernanda pseudoYoung, misturando momentos de pura leveza com trechos hilários, outros mais picantes, alguns quase alucinógenos. No final das contas, qual a história é a história verdadeira, se é que existe mesmo uma? Ou será que esse livro ainda será escrito a partir do último parágrafo?

“Há metáforas, há exageros, há excentricidade, há um texto descomprometido. Por isso a leitura se faz leve e você interage com os personagens, como se eles verdadeiramente estivessem ali, lendo para você a própria aventura.

“Uma viagem entre o real e o surreal, realmente envolvente, com o refinamento de quem devorou alguns livros – afinal, em alguns momentos, “Quero ser Fernanda Young” é quase um compêndio de bons autores -,  mostrando que a atividade de escrever exige,  sobretudo, o bom gosto ao ler. Um texto não para quem esperava  uma nova Fernanda, mas uma nova sacudida na já tão vasta literatura brasileira.” (MARIA LUIZA, LEITORA BETA)

 

 
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